Empresa brasileira que criou o Live Commerce B2B já movimentou R$ 150 milhões em vendas ao vivo entre indústrias e lojistas

Como a Netshow.me construiu uma nova categoria de vendas ao vivo

O comércio eletrônico ao vivo ganhou escala, e, em uma única transmissão de 1h30, empresa negocia R$ 25 milhões

Enquanto o comércio eletrônico B2C disputa a atenção do consumidor em redes sociais, marketplaces e aplicativos, a maior fatia do dinheiro que circula na economia brasileira está nos bastidores da indústria, no mercado de sell-in, onde a venda da indústria acontece para distribuidores, atacadistas e varejistas.

O formato já mostrou sua força no varejo. Segundo levantamento da consultoria Grand View Research, o mercado brasileiro de vendas ao vivo foi estimado em cerca de US$ 2,3 bilhões em 2024, com projeções de chegar a US$ 31,3 bilhões até 2033, crescendo a uma taxa média anual de 34,3%.

Embora esse número reflita o universo total das vendas ao vivo, ainda fortemente concentradas no B2C, esse avanço do formato ao vivo ajuda a explicar por que parte desse movimento começa a migrar também para o comércio entre empresas.

E foi ali, longe da vitrine do e-commerce B2C, que a Netshow.me decidiu concentrar sua próxima aposta e voltar sua atenção para o live commerce B2B como ferramenta estrutural de vendas entre empresas.

O ponto de partida foi mapear onde a engrenagem emperrava. A leitura inicial apostava no consumidor final, mas a prática indicou outro gargalo. “Percebemos que o problema não estava no consumidor, mas no canal. O vendedor físico tem limite de visitas, prioriza os grandes clientes e deixa milhares de PDVs sem cobertura. O Live Commerce B2B cria um relacionamento direto, escalável e mensurável”, conta Daniel Arcoverde, CEO e cofundador da Netshow.me.

A partir daí, a empresa estruturou transmissões fechadas nas quais indústrias apresentam lançamentos, formam lotes, negociam condições comerciais e fecham pedidos em tempo real com milhares de lojistas conectados. Durante as lives, dúvidas são resolvidas, produtos são demonstrados e decisões que antes dependiam de semanas de visitas comerciais passam a ser tomadas em poucas horas.

“Não é sobre audiência, é sobre eficiência comercial”, resume Rafael Belmonte, cofundador da Netshow.me. “A indústria tem dificuldade de escalar relacionamento com a ponta. O vendedor visita alguns PDVs por dia; aqui falamos com milhares ao mesmo tempo, com dados, rastreabilidade e previsibilidade”.

Daniel Arcoverde e Rafael Belmonte, fundadores da Netshow.me

Os números ajudam a explicar a virada estratégica. Somente em 2025, primeiro ano de operação plena da solução, a Netshow.me já gerou mais de R$ 150 milhões em vendas para seus clientes. Em uma única transmissão, foram R$ 25 milhões negociados em apenas 1h30. As taxas de conversão, entre 30% e 40%, superam e-mails, campanhas tradicionais de trade marketing e eventos presenciais.

História

Fundada em 2013 por Daniel Arcoverde e Rafael Belmonte, então jovens profissionais vindos do mercado financeiro e formados pela Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), a empresa nasceu a partir de uma aposta: a expansão das redes 4G e da fibra óptica indicava que a infraestrutura deixaria de ser um freio para transmissões ao vivo no Brasil.

Naquele momento, porém, o streaming ainda exigia estruturas próprias e falava com um público restrito. Ao longo da década seguinte, a companhia atravessou diferentes ciclos tecnológicos até consolidar um portfólio de soluções para o mercado corporativo e inaugurar a categoria do Live Commerce B2B.

Começou no entretenimento, organizando shows pagos e interações diretas entre artistas e fãs. Depois, migrou para o mercado corporativo, estruturando sistemas de vídeo para comunicação interna, treinamentos e convenções.

Entre 2013 e 2015, realizaram mais de 3 mil transmissões musicais, com artistas independentes e nomes como Marcelo D2, Wanessa Camargo e Fresno. O modelo era de marketplace, com ingressos pagos, gorjetas ao vivo e comissão sobre receitas, estrutura que anos depois se tornaria comum em plataformas sociais.

A entrada de grandes plataformas globais de streaming levou a empresa a revisar sua estratégia. Em 2016, passou a atuar como fornecedora SaaS B2B para convenções corporativas, treinamentos e comunicação interna. Desenvolveu uma rede de produtoras homologadas e ampliou o portfólio de soluções de vídeo. Posteriormente, adquiriu uma startup que deu origem a plataformas fechadas de distribuição de conteúdo para clientes, funcionários e parceiros, apelidadas internamente de “Netflix corporativo”.

A pandemia acelerou tudo, e o crescimento chegou a mais de 400%, com 94 colaboradores e rentabilidade. O pós-pandemia, porém, trouxe retração, dois layoffs e uma revisão estratégica profunda. Foi nesse momento que o Live Commerce voltou ao radar.

A empresa começou a testar vendas ao vivo para consumidores finais em 2023, após adquirir a tecnologia de uma startup portuguesa. Mas o mercado mostrava alguns gargalos com campanhas pontuais, dependência de datas promocionais e competição direta com redes sociais e marketplaces.

Virada

A virada veio no fim de 2024, quando uma indústria farmacêutica pediu para vender medicamentos ao vivo, negociando diretamente com donos de farmácias. Uma empresa de cosméticos replicou o modelo com lojistas. Segundo os executivos, os volumes superaram rapidamente as experiências anteriores. “Foram milhões vendidos em minutos”, conta Arcoverde.

A partir dali, a Netshow.me redesenhou a estratégia e passou a tratar o Live Commerce não como ação pontual de marketing, mas como infraestrutura comercial recorrente para a indústria. Hoje, essa frente já responde por cerca de 50% do pipeline comercial da empresa.

“Isso mostra que funciona e que estamos só no começo”, diz Belmonte. “Assim como o e-commerce virou parte estrutural do varejo, o Live Commerce B2B tende a se tornar parte permanente do go-to-market das indústrias”, completa.

A projeção é superar R$ 1 bilhão em vendas ao vivo em 2026 e transformar o Brasil no primeiro grande mercado global de Live Commerce B2B.

A atuação está concentrada em seis verticais: farmacêutica, alimentos e bebidas, cosméticos, autopeças, materiais de construção e pet/vet. Juntas, essas indústrias operam em um universo econômico de grande escala no Brasil.

A indústria de alimentos e bebidas faturou cerca de R$ 1,277 trilhão em 2024, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia); o mercado pet movimentou R$ 75,4 bilhões no mesmo ano, de acordo com a Abinpet; e o setor de beleza e higiene pessoal deve alcançar cerca de R$ 242,3 bilhões em 2025, conforme projeções de mercado.

No setor farmacêutico brasileiro, o faturamento alcançou aproximadamente R$ 138,3 bilhões no primeiro semestre de 2025, segundo dados da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac).

“São números que ajudam a dimensionar o tamanho do território que a Netshow.me ajuda a digitalizar: o coração do sell-in industrial brasileiro, onde menos se fala de likes e influenciadores e mais de volumes, margens, cobertura comercial e eficiência”, resume Arcoverde.

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